Celeste Angular

By Carlos Gurgel

- Se é pra me encher o saco com teus problemas, porque não some de uma vez?

- Nem sei porque ainda tô aqui…

E era assim mesmo, aquilo nascia inconsciente, visceral como escarro, sangue ou mijo, ia brotando no entredentes, forçando a barreira do silêncio, quando menos esperava, jorrava, saindo pelos lábios uma saraivada de palavras desmedidas, despreparadas, quando ia ver, tudo estava sempre fodido demais, tudo numa velocidade grande, pista sem freio, doença sem cura, e toda essa loucura ia saindo da boca, e ele saia do corpo, parecia que se via de fora, às vezes nem se importava de se ver de fora, de ver como tudo aquilo nascia nele e morria nela. Uma palavra, um tiro.

- É, não sei porque você tá aqui ainda…

- Sou idiota de achar que as coisas ainda podiam diferentes.

- É, é mesmo…

Parecia piada, deboche, eu queria ir, mas não tinha mais controle, os movimentos não saiam mais de mim, eu nem pensava, era tudo mal pensado, mal escrito. Ela ficava lá me olhando com o olhar cético de quem esperava que eu resolvesse por ela, que eu tomasse iniciativa, que matasse o orgulho, o olhar de gente imbecil, o olhar de quem realmente ama. Vê lá…amor? Pra que escolher um sentimento tão barato, vendido à tão pouco, artigo em desuso, sou mais a minha compaixão, doença dos fracos, imagem dos grandes.

- É, sou mesmo, desculpa por tentar dar chance pra tudo o que a gente já viveu…

- Tudo? Acha que foi bastante mesmo? Você não tem noção do que é bastante…

- Fala o que você quiser, eu não vou ficar ouvindo você…

Ela era mulher, sabia ouvir, mas sabia antes de tudo, falar. Abrir a boca e soltar palavras sem se importar com o que ele dizia, o que significava nem quem ouvisse. Burra. E o que ele odiava era inércia de pensamento, saber que sem querer, podia estar abrindo um horizonte. Uma realidade podia matar teu ideal de menina mimada e burra. Um raio de sol nesse imenso porão de vida falsa faria um tremendo estrago.

- Isso, vai embora mesmo…foge, a verdade dói, né..

- Ah, é..qual é a verdade? Me fala então.

E eu tinha vontade de mostrar pra ela o que era a vida. O que era o certo, o que era de verdade. O que era real e o que era mentira. Que tudo que aquela vida de merda que ela tinha imaginado desde que enfiou o rabo numa calça apertada e a cabeça num mar de merda que dizem professores e amigos e parentes, que isso tudo era lixo. Que ela podia começar de novo se quisesse viver, tudo o que ela precisava era sentir, não ser burra de achar que o mundo era tudo de tão bom, que era só dar sorrisos, abraços e se esforçar que a vida passa, porque a vida dói e para saber o que é isso é preciso enfrentar, botar o pé no chão. E eu não sabia se queria esfregar a cara dela no chão ou pegar ela no colo.

- Você nunca aprendeu nada, né? É uma mimada que nunca teve tempo para pensar em nada que saísse do teu mundinho…

- Uma vez alguém me disse que saudade é luxo para quem tempo de pensar nos outros.

Bandida. Ainda lembra do que eu dizia. Frases feitas pra comer universitárias.

- Saudade é diferente de compaixão. Eu tenho pena de você e da sua vidinha superficial de quem finge ser feliz. Pro caralho com a tua comodidade, com teu cinismo e a tua inveja de quem já viajou pra mais longe do que a piscina do prédio.

Quando vi, estava cuspindo sujeira, remoendo um monte de coisas que não estavam nem guardadas, estavam enterradas em algum canto qualquer da alma, quinquilharias que podiam ser jogadas fora. Mas eu guardava, igual mecânico com peça usada, eu guardava tudo porque sabia que um dia podia usar, é a sina do maldito, é o destino de quem vence sob todos aspectos, com todos artifícios.

- Pro caralho com você…quem você pensa que é? Um merda que nunca foi nada…um derrotado..
- Queria que eu fosse igual a quem? Teu pai?

Meu pai usava Rainha branco sem cadarço. E como eu odiava aquilo. Eu nem me lembro como pensei nisso. Fui pensando em mais coisa, eu saindo de casa, olhando pra trás, quando ele dizia pra eu nem olhar, pensei no meu braço quebrado com 6 anos, da caxumba no meu aniversário, de como a escola era um inferno, da minha mãe morrendo, e fui enfiando tudo, os pés pelas mãos, e tudo que vinha, eu filtrava, coava um suco com polpa de ódio e rancor, contaminando tudo que eu dizia com esse nobre adubo de palavras, um veneno sem limitações físicas: eu podia o levar até onde quisesse. Eu podia ficar ali, invencível, intrínseco, parado, uma usina de lembranças que podiam alimentar meu discurso até escorraçar ela dali, sem pontapé nenhum.

- Não fala no meu pai, você tem nem moral pra tocar no nome dele…ele sempre esteve certo falando de você..

- Claro, eu tenho culhão, coisa que ele não deve nem lembrar que exista. Porque ele deve ter vivido bem a vida até foder com ela de algum jeito, ficar preso numa casa, com portão grande, preso numa rotina pra sustentar você e teus irmãos…

- Vai se foder. Sabe do que mais? Você merece isso mesmo, ficar sozinho porque você é um monstro, não é uma pessoa, é um ridículo, um egoísta…que só pensa no que faz bem pra você…

- Sou, egoísta, ranzinza, ridículo. E você faz o quê aqui ainda? Quer o quê? Que eu trepe com você? Não, obrigado, não quero mais. Pode ir embora, eu arrumo alguma coisa melhor pra fazer hoje de noite. Some daqui logo, vai.

E eu senti o rosto quente. Não era lágrima, óbvio. Era raiva. Era diferente de sentir, eu não me abalava com o que ela dizia, ela era pequena, uma imbecilzinha que eu acho em toda esquina, toda noite, por menos de 20 reais. Mas eu não conseguia parar de olhar pra ela. De frente, de repente de costas, ela limpando o rosto do choro, que contaminou tudo e eu ainda cuspi mais umas verdades que a imbecil precisava escutar, que se era pra se esfregar em alguém na minha frente, eu pagava uma puta que me daria mais prazer, isso e mais um milhão de coisas que fui tirando do baú de coisas tristes, de frases pra machucar que estavam todas bem estocadas, todas bem guardadas, que todo mundo tem, nem quase todo mundo sabe onde fica e muito menos gente tem coragem de pegar pra usar. Mas eu sim, e fui jogando tudo, o escarro ia saindo e ia impregnando nela, grudando como cola, ela urrava, o choro ecoava, ela pegando tudo o que era dela ali pela casa, as roupas, a maquiagem, os badulaques de mulher, catando os cacos de uma emoção que ela sentiu sozinha, porque eu não senti, porra, quem era ela? Por um segundo, eu não conhecia mais o rosto dela, eu dizendo pra ela não pegar caralho nenhum, porque sem mim, ela nunca teria usado nada daquilo, teria ficado vivendo de sonho e revista de fofoca, e conversa fiada, e namorado que trepa de meia, pra ela deixar tudo lá, e quanto mais eu falava, mais ela urrava de raiva, chorava e me desviava o olhar. E ela juntou tudo nos braços, como quem abraça o desespero, na hora difícil, que não tem onde pegar, onde se agarrar e se apega no que parece mais perto. E quando eu pensei que ela fosse largar tudo e se ajoelhar no meu pé, chorando, ela virou a chave e invadiu o corredor e eu saí gritando atrás dela, eu queria rir, ou chorar, mas senti mais raiva ainda, e cada passo dela era um tapa na minha cara e cada passo era uma palavra mais feia que eu falava, eu ia abrindo tudo, rasgando com tudo o que tinha passado com a gente, eu quase ri, ou chorei, eu fui fundo, pele, nervo, músculo, até chegar no que eu não podia ver mais. Então o elevador desceu e eu só disse:

- Não volta mais aqui, vadia.

É isso, então. A vista é mais bonita na beira do abismo.

*Texto escrito em 07 de janeiro de 2006.

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