Dias Seguintes

19/06/2009 por Carlos Gurgel

Centenas de tempos.

Pensamento lento,
chego segundos atrasados,
e não te vejo de frente.
Indiferente é só o seu desejo.

Sinto dedos inertes,
que não se envolvem
e contemplam o fim do dia,
esquecidos num bolso qualquer.

O tempo vale.
Destrói tudo, mas é intenso.
E a verdade, cada dia mais,
é delirante.

Nem tudo é espelho,
mas quando eu procuro saídas,
tudo parece, inacreditavelmente, igual.
Se repetindo no infinito.

Como portas que se abrem
e dão em lugares vagos,
abismos da alma.
Espaços sem volta.

Sigo a estrada do nilismo,
velocidade constante,
de janelas abertas,
sentindo o ar puro da desilusão.

*Texto escrito em 9 de maio de 2006

Balé-solo

17/06/2009 por Carlos Gurgel

Aplauso é pra quem nasce de dia,
chora de soluçar de tarde e
embarca sonhos à noite,
abraçado em seus triunfos e desencantos.

Encontros de mãos hesitantes.
Quem odeia,
não merece complemento.

Concerto de orquestra muda,
o silêncio é impotente
perto de um carinho.

Conversa de céu.
Quem ama,
não merece julgamento.

Preciso mover muitos músculos pra sorrir.
Por isso, vivo fechado,
preso do outro lado,
onde não bate sol, venta fraco
e o destino joga os dados.

Paciência.

*Texto escrito em 18 de abril de 2006

Celeste Angular

26/05/2009 por Carlos Gurgel

- Se é pra me encher o saco com teus problemas, porque não some de uma vez?

- Nem sei porque ainda tô aqui…

E era assim mesmo, aquilo nascia inconsciente, visceral como escarro, sangue ou mijo, ia brotando no entredentes, forçando a barreira do silêncio, quando menos esperava, jorrava, saindo pelos lábios uma saraivada de palavras desmedidas, despreparadas, quando ia ver, tudo estava sempre fodido demais, tudo numa velocidade grande, pista sem freio, doença sem cura, e toda essa loucura ia saindo da boca, e ele saia do corpo, parecia que se via de fora, às vezes nem se importava de se ver de fora, de ver como tudo aquilo nascia nele e morria nela. Uma palavra, um tiro.

- É, não sei porque você tá aqui ainda…

- Sou idiota de achar que as coisas ainda podiam diferentes.

- É, é mesmo…

Parecia piada, deboche, eu queria ir, mas não tinha mais controle, os movimentos não saiam mais de mim, eu nem pensava, era tudo mal pensado, mal escrito. Ela ficava lá me olhando com o olhar cético de quem esperava que eu resolvesse por ela, que eu tomasse iniciativa, que matasse o orgulho, o olhar de gente imbecil, o olhar de quem realmente ama. Vê lá…amor? Pra que escolher um sentimento tão barato, vendido à tão pouco, artigo em desuso, sou mais a minha compaixão, doença dos fracos, imagem dos grandes.

- É, sou mesmo, desculpa por tentar dar chance pra tudo o que a gente já viveu…

- Tudo? Acha que foi bastante mesmo? Você não tem noção do que é bastante…

- Fala o que você quiser, eu não vou ficar ouvindo você…

Ela era mulher, sabia ouvir, mas sabia antes de tudo, falar. Abrir a boca e soltar palavras sem se importar com o que ele dizia, o que significava nem quem ouvisse. Burra. E o que ele odiava era inércia de pensamento, saber que sem querer, podia estar abrindo um horizonte. Uma realidade podia matar teu ideal de menina mimada e burra. Um raio de sol nesse imenso porão de vida falsa faria um tremendo estrago.

- Isso, vai embora mesmo…foge, a verdade dói, né..

- Ah, é..qual é a verdade? Me fala então.

E eu tinha vontade de mostrar pra ela o que era a vida. O que era o certo, o que era de verdade. O que era real e o que era mentira. Que tudo que aquela vida de merda que ela tinha imaginado desde que enfiou o rabo numa calça apertada e a cabeça num mar de merda que dizem professores e amigos e parentes, que isso tudo era lixo. Que ela podia começar de novo se quisesse viver, tudo o que ela precisava era sentir, não ser burra de achar que o mundo era tudo de tão bom, que era só dar sorrisos, abraços e se esforçar que a vida passa, porque a vida dói e para saber o que é isso é preciso enfrentar, botar o pé no chão. E eu não sabia se queria esfregar a cara dela no chão ou pegar ela no colo.

- Você nunca aprendeu nada, né? É uma mimada que nunca teve tempo para pensar em nada que saísse do teu mundinho…

- Uma vez alguém me disse que saudade é luxo para quem tempo de pensar nos outros.

Bandida. Ainda lembra do que eu dizia. Frases feitas pra comer universitárias.

- Saudade é diferente de compaixão. Eu tenho pena de você e da sua vidinha superficial de quem finge ser feliz. Pro caralho com a tua comodidade, com teu cinismo e a tua inveja de quem já viajou pra mais longe do que a piscina do prédio.

Quando vi, estava cuspindo sujeira, remoendo um monte de coisas que não estavam nem guardadas, estavam enterradas em algum canto qualquer da alma, quinquilharias que podiam ser jogadas fora. Mas eu guardava, igual mecânico com peça usada, eu guardava tudo porque sabia que um dia podia usar, é a sina do maldito, é o destino de quem vence sob todos aspectos, com todos artifícios.

- Pro caralho com você…quem você pensa que é? Um merda que nunca foi nada…um derrotado..
- Queria que eu fosse igual a quem? Teu pai?

Meu pai usava Rainha branco sem cadarço. E como eu odiava aquilo. Eu nem me lembro como pensei nisso. Fui pensando em mais coisa, eu saindo de casa, olhando pra trás, quando ele dizia pra eu nem olhar, pensei no meu braço quebrado com 6 anos, da caxumba no meu aniversário, de como a escola era um inferno, da minha mãe morrendo, e fui enfiando tudo, os pés pelas mãos, e tudo que vinha, eu filtrava, coava um suco com polpa de ódio e rancor, contaminando tudo que eu dizia com esse nobre adubo de palavras, um veneno sem limitações físicas: eu podia o levar até onde quisesse. Eu podia ficar ali, invencível, intrínseco, parado, uma usina de lembranças que podiam alimentar meu discurso até escorraçar ela dali, sem pontapé nenhum.

- Não fala no meu pai, você tem nem moral pra tocar no nome dele…ele sempre esteve certo falando de você..

- Claro, eu tenho culhão, coisa que ele não deve nem lembrar que exista. Porque ele deve ter vivido bem a vida até foder com ela de algum jeito, ficar preso numa casa, com portão grande, preso numa rotina pra sustentar você e teus irmãos…

- Vai se foder. Sabe do que mais? Você merece isso mesmo, ficar sozinho porque você é um monstro, não é uma pessoa, é um ridículo, um egoísta…que só pensa no que faz bem pra você…

- Sou, egoísta, ranzinza, ridículo. E você faz o quê aqui ainda? Quer o quê? Que eu trepe com você? Não, obrigado, não quero mais. Pode ir embora, eu arrumo alguma coisa melhor pra fazer hoje de noite. Some daqui logo, vai.

E eu senti o rosto quente. Não era lágrima, óbvio. Era raiva. Era diferente de sentir, eu não me abalava com o que ela dizia, ela era pequena, uma imbecilzinha que eu acho em toda esquina, toda noite, por menos de 20 reais. Mas eu não conseguia parar de olhar pra ela. De frente, de repente de costas, ela limpando o rosto do choro, que contaminou tudo e eu ainda cuspi mais umas verdades que a imbecil precisava escutar, que se era pra se esfregar em alguém na minha frente, eu pagava uma puta que me daria mais prazer, isso e mais um milhão de coisas que fui tirando do baú de coisas tristes, de frases pra machucar que estavam todas bem estocadas, todas bem guardadas, que todo mundo tem, nem quase todo mundo sabe onde fica e muito menos gente tem coragem de pegar pra usar. Mas eu sim, e fui jogando tudo, o escarro ia saindo e ia impregnando nela, grudando como cola, ela urrava, o choro ecoava, ela pegando tudo o que era dela ali pela casa, as roupas, a maquiagem, os badulaques de mulher, catando os cacos de uma emoção que ela sentiu sozinha, porque eu não senti, porra, quem era ela? Por um segundo, eu não conhecia mais o rosto dela, eu dizendo pra ela não pegar caralho nenhum, porque sem mim, ela nunca teria usado nada daquilo, teria ficado vivendo de sonho e revista de fofoca, e conversa fiada, e namorado que trepa de meia, pra ela deixar tudo lá, e quanto mais eu falava, mais ela urrava de raiva, chorava e me desviava o olhar. E ela juntou tudo nos braços, como quem abraça o desespero, na hora difícil, que não tem onde pegar, onde se agarrar e se apega no que parece mais perto. E quando eu pensei que ela fosse largar tudo e se ajoelhar no meu pé, chorando, ela virou a chave e invadiu o corredor e eu saí gritando atrás dela, eu queria rir, ou chorar, mas senti mais raiva ainda, e cada passo dela era um tapa na minha cara e cada passo era uma palavra mais feia que eu falava, eu ia abrindo tudo, rasgando com tudo o que tinha passado com a gente, eu quase ri, ou chorei, eu fui fundo, pele, nervo, músculo, até chegar no que eu não podia ver mais. Então o elevador desceu e eu só disse:

- Não volta mais aqui, vadia.

É isso, então. A vista é mais bonita na beira do abismo.

*Texto escrito em 07 de janeiro de 2006.

Direitos Reservados

05/05/2009 por Carlos Gurgel

Estrela consonante.
Teu sorriso minguava
em mandarim,
eu não sabia entender.

Entre dentes,
guarde teus minutos
para quem os ouça,
não envoltos na mortalha.
Eu ouço.

Sem rodeio,
reféns da metáfora,
tenda de cartomante.
Não tive linha
para colher palavras.

Não percebi nada,
imerso em sono pesado,
leve descuido,
incômodo e equívoco.
Não vi teus passos.

Em noites brancas,
não há limites
para o litoral,
sempre aflito,
embriagado de ressaca.

Fagulha de fogo
atingiu a relva seca.
Meu espelho não refletiu,
o cheiro ficou surdo
e o mundo, cego.

O eterno nasceu morto,
deixando órfão o remorso.

*texto escrito em 13 de outubro de 2005

Versos Livres

20/04/2009 por Carlos Gurgel

Em tarde remota,
choro de viúva.
(somos todos pecadores)
Irrefutáveis,
estilhaços de dia
esfregavam a janela.

Estalos de saudade,
ainda vive o pudor,
mesmo morta
a essência?

A comida é sincera,
o garfo é limpo,
o poeta é submisso e
o óbvio, oblíquo.

Quem se equilibra
no meio fio da vida,
implacável e
distante,
é o tempo.

Vai ser ruim,
já vou avisando.
Amargo, ardido
e pode demorar.
Imaginou?
Pois então,
pior.

Relampejou.
Choveu lágrima,
verteu sorriso,
choviscou equívoco,
gotejou palavra.
Não nasceu o Sol,
mas um canário.

Desci ao inferno,
amparado em amizade,
choramingando insensatez,
a relva era quente,
as companhias decentes.
Ou vice versa.

Cansado de ver
capítulos intermináveis
de inverno,
arranquei os olhos.
Agora vejo.

Não há vento
que sossegue amor,
nem respingo de saudade
que renasça tulipa.

Pior eu
que tive caxumba,
ela desceu,
e eu não uso mais bermuda.

*escrito em 10 de outubro de 2005

Colóquio

08/04/2009 por Carlos Gurgel

Quem disse que eu quis assim?
O passado sempre triste,
O presente tão amargo,
O futuro quase incerto.
Haveria tempo sem momento?

Quem disse que era pra acabar?
Se o espelho fosse reservado,
Tivesse não mostrado tanto,
Se tivesse escondido,
O que não era pra ser visto,
Tudo estaria infinito agora.

Quem disse que o silêncio é vazio?
No meu peito, ele grita
Rezas, vitrolas,
Choros, sussurros.
Mas quando eu digo,
O som sai mudo.
E não há pôr do sol,
Não há sonho bom,
Não há daqui a pouco,
Não há próxima vez.

Quem disse que sempre vale tudo?
Angústia e paixão
Somam-se aos olhos
Que vêem noites
Que não amanhecem;
Corpos que se queimam,
Mas almas que não se entendem.

Quem disse que pra tudo tem resposta?
Canto de olho,
Fotografia amarelada,
Brisa do mar,
Beijos surdos,
Fustigam a escuridão,
Suicidando a luz,
Precipitando o nada.

Quem disse que o tempo não muda?
Se sublimam as horas,
Se alongam os minutos,
Mas não se prolonga o amor,
Que existe,
É inteiro,
Não pode ser meio
Nem mais de um.
Goste por você,
Não tente amar por dois.

E ela sabia,
Dentre muito não saberes,
Que era assim,
Simples como mar,
Como folha,
Como vento,
Estão lá só
Pra quem quisesse ver.

Ela sabe que só poderia
Voltar a viver
Quando quisesse.
Mas era difícil querer.

*Escrito em 5 de outubro de 2005

Quadrilha

03/04/2009 por Carlos Gurgel

Já não era muito tarde quando, da janela, ecoou o riso ensolarado de mulher. O bastante para ele abrir os olhos gordos, se livrar da coberta e empurrar o corpo lento para a janela, que dava para o jardim. O sol já estava abafado, fazendo reluzir o branco pintado nas tábuas finas de madeira de lei que vestiam a casa. As telhas, avermelhadas, deslizavam sobre o telhado em contorno simétrico por qualquer ângulo que se olhasse. Era casa antiga, visto a porta de entrada, com partes enormes de madeira espessa, ladeadas por lamparinas que nunca eram acesas. O garoto meteu o olhar pela fresta íngreme da janela.

As mãos subiam e desciam rapidamente, fazendo dançar lençóis e colchas espessas. O varal rangia, mas não parecia se incomodar com o peso. Dedos compridos e finos, acostumados ao manejo, os braços dourados, queimados, não tinham flacidez: magros, desenvoltos. De tanto uso, vestido poído; azul agora quase branco, ocupado pelo quadril largo. Na ponta dos pés, fazia o movimento sincopado. Subia, prendia, descia; a sacola de pregadores junto às chinelas. Balanço sagrado aos olhos do gordo.

Com gesto refletido, lento, a velha arrolhou a garrafa de licor, encheu a taça e sorveu um gole raso. O relógio marcava dez e cinco da manhã. Retomou o ar e grunhiu de voz rouca. Cerrou a cortina. Quanto pó, Deus meu. Franziu a testa e contou os passos curtos até o sofá, tomado de buracos. Seus ossos estalaram. As pernas tímidas penderam para o mesmo lado. Roçou a ponta dos dedos pelo cabelo alvo desgrenhado. Pose de diva, diria Gregório. Esticou os lábios ressecados, esboçando meio sorriso ao pensar nele. Deusa barroca, minguante em pleno dia. Grunhiu novamente, liberando fio de voz.

Berenice pendeu à sala, ainda com os dedos ocupados de colchas, os olhos indulgentes guiando pernas estabanadas. Enquanto o mundo lá fora se enchia de cores, a penumbra fazia ninho naquela sala. Nada reluzia, aflorava; o bege do sofá fazia par com as paredes sujas. A paisagem modesta exaltava a figura extravagante e rude da velha. Berenice deu mais alguns passos curtos, serviu os ouvidos das sílabas fracas dela. Acenou com a cabeça e se dirigiu a vitrola. A agulha, descompassada, riscava o fim do vinil. Ela a recolocou no início, vendo de soslaio o sorriso da velha. Mantinha-se por pena. Não sabe se própria ou da velha.

Enquanto voltava pela cozinha, deteve os olhos na mesa. Combinações de prateleiras e móveis, outrora cheios, hoje aninhavam insetos. Pouco se usava, pouco se mexia na cozinha; panelas velhas, enormes, amontoadas sobre armários e dependuradas na parede. Mas a mesa sim, continuava viva, cheia, mesmo com os seres vazios pela casa. Os quatro pratos, copos e duplas de talheres. A velha raramente comia, em meio a alguns praguejos, ordenava a Berenice que lhe fizesse ovo e feijão. Quando pronto, sempre separava algo ao prato de Gregório. Entre garfadas e bebericadas no licor, se dirigia ao vazio, relembrando algo, indagando o marido, mudo para sempre. Por vezes altiva, quase sempre deixava o prato pela metade, olhos tristes na cadeira dele.

Sabe que isso vai mudar tudo, não sabe?

Promete?

E Berenice viu as costas de Ramiro. Passos largos, ruidosos, mas o som se foi. Deitada ainda na cama, apertava as mãos no peito, desejando jorrar esperança, esfregava os dedos na pele, tentando barrar saudade saindo pelos poros. Poderia durar horas, mas o ruído sumiu, encoberto pelo ronco estridente do silêncio. De repente, vida demais. Deus a puniu? Com Ramiro não era certo? Não com a patroa que sempre lhe foi boa. Minha culpa, minha culpa. Tola. Tinha que ter mentido, negado.

Vai dizer que nunca me olhou com desejo? Não mente, Nice. Vem cá.

Eram dias simples, a velha tinha pra quem oferecer os minutos, mesmo sem Gregório. A devoção embebeu Berenice de ternura pelo garoto. Mas era simples. Não devia ter deixado ela entrar no quarto. Nunca tinha deixado. Nem ele tentado, muito menos com o pai vivo. Nem levantava os olhos. A velha gostava mesmo da sala. Da sala e do licor. Do licor e de Ramiro. Eram intermináveis horas sentadas na janela, ela vertia lágrimas, ele; solidão. Quase sempre com o retrato de Gregório nos braços.

Não quero, Ramiro. Sai daqui, tua mãe pode ver.

O gordo era paciente, colou a barriga na parede, os olhos continuavam enterrados na fresta da janela. A mão dentro da calça, o cabelo desarrumado. O tempo desviava seu rumo, minutos guardados. O pai era engenheiro requisitado, quase sempre viajava. Era raro vê-lo pela casa, a não ser nos aniversários dos filhos. Tinha cabelo pouco e grisalho, olhos profundos e cansados, barba severamente cerrada. Passava ordens às empregadas antes das viagens, que podiam durar dias ou meses. Heitor passou o braço na testa, enxugando o suor que já vertia a face.

Não gosta de beijo? Alguém te beijou assim já, Nice?

Tinha arrumado emprego na linha férrea. Berenice acordava meia hora mais cedo, cozinhava arroz, carne e banana, embalava na lata prateada. Ramiro saía do banho, por vezes, se deitavam antes dele tomar o circular. O caminho de terra, quando não chovia, era sempre difícil, o ar faltava, a asma, por vezes, lhe tomava conta. Quase sempre, lhe tingia a roupa de terra batida, principalmente as calças. Depois de dura do patrão, passou a levar um casaco grande do pai, que lhe cobria até os pés. Usava-o todos os dias, mesmo quando o sol queimava a nuca. Chegava sempre tarde, já escuro. Sempre cansado. Os dias ficaram curtos e amargos. Quando o procurava, Berenice era recebida com rudeza. E faziam as pazes pela manhã.

Eu volto, você sabe. Mas não posso ficar agora, Nicinha. Vamos, não chore.

E desde então, ela caminha cambaleante, em meio a noites que não amanheciam.

Eco

29/03/2009 por Carlos Gurgel

Depois de Lígia,
giro a chave,
empurro a porta,
e encontro um exército imóvel,
armado de ausência.

Depois de Lígia,
ando passos firmes,
barulhentos, desconexos,
abafados pelo
timbre solitário
dos cantos vazios.

Depois de Lígia,
o quadro,
mar, areia, sol;
virou lago,
sem ressaca.
Eu, copo na mão,
faço a minha.

Depois de Lígia,
fissura virou fenda,
caminhos sem atalhos;
dia virou rotina,
conselho, inércia.

Depois de Lígia,
lar doce lúgubre,
o dia se afastou,
o tempo aumentou.

Os cantos se alargaram,
mas as arestas da vida
continuam pontiagudas.

E eu durmo,
coberto pela
sombra do remorso.

*Escrito em 27 de setembro de 2005

Verão de Visco

24/03/2009 por Carlos Gurgel

A mesa não se acomodava em lugar algum, os pés sambavam pelo assoalho empoeirado, forjados pelos cotovelos dos dois. Por vezes, rangia. O sol já era mais fraco, a tarde dormia na serra, multiplicando as sombras na rua de terra batida. Cínico, o vento se escondia, levantando poeira fina, feita para entrar nos olhos.

- Tá tudo fodido por aqui…

- Não fala assim, Zé.

Igino pousava os olhos no raso fio de cachaça que repousava no copo. Franziu a testa, acenando para que lhe servissem mais. A gengiva sem dentes do velho se exibiu, passou a mão rapidamente na garrafa e se arrastou a passos lentos, contados para a mesa dos dois. Tinha a camisa, antes branca, quase amarela, óleo e suor em pujantes pedaços de carne arrebatada. Encheu os copos de maneira rápida. Zé Custódio tinha os olhos no velho. Coçava a barba alva e paraguejava baixo; o velho pigarreou antes de se afastar da mesa.

Era fim do tempo. Aquelas terras não eram mais nossas, caralho. Era tudo jogado fora. Vê o que fizeram? No começo, quem levantava cedo, carpia e calejava braço e alma é que era homem de verdade. Agora? Era o tempo que o Expresso ainda passava. O que tem por lá hoje? Um bando de arruaceiros, usando tudo o que a gente sempre teve e deixou pra eles. O tempo não volta, Igino. Acabou. Nem aqui mais a gente pode ficar. É capaz de vir um aqui e me tomar a cadeira. Como não, Igino? Por onde você tem andado, porra? Pega cada bastardo desse, conheço pai, mãe. E agora? Deus fechou os olhos pra essa merda de vez.

- Não diga uma coisa dessas, homem. Não sabe o que diz.

A cama grande; o criado, repouso de vela seca; o armário sem portas, o espelho corroído pelo tempo. E cada vez que abro a janela, alguma coisa muda. O que aconteceu com essa gente? Mais estúpidas, rudes, burras; eram mais sujas, camabaleavam. Multiplicavam-se os bêbados, as putas, os arruaceiros. Parece que o passado só morava da janela pra dentro, Igino. Estava lá, sentado, me olhando. Com medo de sair. Esses cretinos tomaram isso aqui de assalto. As pessoas não sentam e conversam mais.

- Não se preocupa não, Igino. Deus não entra em bar.

O velho se rendeu às moscas. Tirou a camisa amarelada e jogou-a no balcão, deixando as varejeiras se esbaldarem, urubus em carniça nova. Com as costas das mãos gordas, varreu o suor da testa, limpou no pano imundo e calçou a barriga na pia. Ainda não decidido se engolia o pigarro.

Amélia tinha os olhos que pousavam em tudo, inquietos, balançados. Dois daqueles grandes. O rosto era fino, delicado; comprada a moldura, fazia-se quadro. Tinha lá pelos seus quinze anos, idade soberba…a cintura não se camuflava pelo vestido florido, não….quadril largo, peitos querendo sair…Você a conheceu, Igino? Pudera..há tanto tempo. E para quê tudo isso? Parece um barril hoje, homem. Chega um ponto que não se toca mais na esposa. Não, não me venha com igreja, Igino. Não é pecado não. É nojo, respeito pela carne morta. Quanto tempo? Quarenta, trinta anos vendo a decadência da beleza? Não é fácil. Quem imaginava? Formosa como era…hoje um espantalho.

- Deus está em todo lugar, Custódio.

- Porra nenhuma.

E esse merda no balcão? E essa suja com ele? Me olham como se eu tivesse que levantar daqui e fazer alguma coisa. Mas do que já fiz. Que fala baixo o quê, Igino. Que essa gente quer? Que se enterrem, um ao outro. Eu jogo terra, mas não mexo um dedo. Eu gosto de sentar à tarde lá na fazenda, Igino. Passar o olho no jornal velho, ligar o rádio na estação. Que morram todos aqui.

- Sou do tempo em que se marca o enterro quando vejo o corpo, Custódio. Esperança, homem. Por Deus.

Custódio sorveu a pinga de uma vez só. A barba era refúgio, movimento marcado. Encarava Igino. Puto. Com essa conversa mole de igreja ainda. Puto. Tinha os olhos baixos. Entregues. Eram todos iguais mesmo. Só agora a cachaça lhe incendiava a garganta. Pudera viver essa quentura sempre.

- Virou padre, Igino? A gente precisando de homem e você veste saia?

O cheiro de dama da noite invadia por todos os lados, estagnado no ar escondido; o surdo som de pernas começava a tomar conta da rua, a poeira subia, impedindo a respiração. Ao longe ia o dia, já todo cinza. O tempo já não corre; o velho se espreguiçava, na frente do bar, exuberante com a flacidez à mostra; a mesa dançava a música do desassossego, no baile do par desesperado.

*Escrito em 19 de setembro de 2005

Bálsamos (continuação)

18/03/2009 por Carlos Gurgel

continuação do texto Bálsamos, postado em 4 de março de 2009

Chovia.

Inegável a ação do tempo nas melenas: pudera ter ímpeto similar. Passava a escova pelos cabelos ralos, banhando a mão de mousse para aprisioná-los nos grampos. Mirava-se no reflexo do espelho, inevitável e degradante habilidade feminina. Era cedo. Não devia passar das cinco da manhã, mas ela já se punha de pé, como num brado militar, forrando o estômago com alguma fruta e leite. Ainda de camisola, espiava o tempo, que acenava a muda de roupa. Nos dias mais quentes, ocupava-se com saia fina e blusa clara, que a deixava mais à vontade; quando nascia frio o dia, ela, a contragosto, revestia o corpo de saias pesadas e compridas, veludo ou camadas de linho, blusa de mangas longas e casaco de lã, geralmente escuro. Em todas as escolhas, não deixava, porém, a combinação e o broche dourado, com rubi, presente da mãe.

O forte calor não a incomodava. Sentia um leve comichão no rosto, talvez excesso de pó; na pressa, deve ter errado a quantidade. O olhar era irrequieto: a velha já havia decorado na mente toda a sala de recepção: poltronas duras de imitação barata de couro, surradas e rasgadas; um vitrô fosco que aumentava o calor da sala; no alto da porta, um copo com água onde repousava uma flor quase murcha. Mas a velha se atentava mesmo à imagem do quadro de Nossa Senhora, desbotada, em sua frente, pregada no alto da parede azul. Lançava os dedos pelas pedrinhas do terço, desfilando o rosário nas horas que se arrastavam. De repente, ouviu movimento na escada: descia o homem, avental, antes alvo, agora rubro, escuro. Acompanhava a filha, cambaleante, levada pelos braços. A velha secou a garganta, afugentando qualquer mau presságio e abriu a bolsa, retirando o envelope que entregou ao homem, que sorria amarelo. Vendo a menina titubear os passos, apertou-lhe fortemente os braços, transferindo ali viço de vida, como que tocando a pele, pudesse a fazer melhor. Tomou o caminho da rua.

Não se cansava de passar o pano no velho quadro da sala, mas ele a incomodava. Aquela imagem nostálgica, desprovida de sentido, o mar jogando-se nas pedras a inebriava. Não a enxergava como imagem; era som. Era como se fosse falso: a cena pulsava, podia ouvir o som da água, mas não contemplar o movimento rebelde das águas, presas numa pintura. Perdia tempo a velha naquele espaço da sala, em que se interrompia pela algazarra barulhenta que a pequena fazia pela sala. Pernas curtas, mas movimentos ágeis. Trançava poucos passos e logo tomava a casa. Do contrário do quadro, podia a ver, mas raramente a escutava. Aliviava o peito quando a menina se punha prostrada, em comunhão com a porta do quarto do pai, onde ele provavelmente tocava. Seu alívio, porém, era seu calvário. Ela não podia compartilhar mais momento como este com a filha: herança de uma terçã que lhe causou seqüela em um dos ouvidos, de onde só escutava o silêncio.

Metia-se na louça, quando os dois estavam vidrados na música; metia-se a arrumar os quartos e esticar fronha, quando estavam com as plantas. E metia-se na janela quando saiam para a rua. Estava sempre assim: aos cantos. Destronada pela menor, não dividia o afeto pelas mesmas atividades. Geralmente ficava à televisão, decifrando seus códigos com os olhares aguçados, quando muito, levando o ouvido ao aparelho, para tentar compreendê-lo, num esforço de seus sentidos. Não se podia ouvir quando os dois chegavam sorrateiros, se murmuravam ou revelavam segredos. Só podia lhe sentir os extremos: a alegria do riso ou o sonoro choro, sempre da pequena.

Percebeu que a filha encolhia perante o vidro. De relance, a via pousar a mão no ventre e olhar perdidamente para o resto do mundo, pelos vidros embaçados do ônibus. Em vez de tomá-la nos braços, queria era tomar o volante do condutor, que fosse mais rápido. Queria poder esquecer, o tormento logo ter seu final. Viu a filha balbuciar a seu lado, mas mantinha a rigidez para que a comoção não lhe fluísse pelo sangue, chegando ao coração. A consternação era a pior das virtudes. Lembrou-se das palavras de Agenor.

Eram sempre nas tardes que passavam juntos, resquícios de memória, que o dia corria mais lento. Agenor se punha a desfilar melodia no violão velho, tirada de forma tão simples que parecia fácil. O terno alinhado, a gravata sempre vermelha e o chapéu de palha ocre. E ela não sabia exatamente o porquê, envolvida pela música ou a beleza do marido, entrava num transe mudo, fascinada, adoração de invejar cultuados santos. E quando errava (em momentos esparsos), e ela levava-lhe a mão nos ombros, desferindo-lhe conforto pelo engano de cordas, ouvia o apelo de que demonstrar piedade era o pior dos erros, podando assim o gesto de carinho. No fim das contas, podou todos.

Mesmo chovendo, a velha não se incomodou. Refez-se do banho quente, vestiu-se com veludo e cachecol de lã, voltando à cozinha. Olhava pela janela, vendo o dia frio, ainda negro, iniciar seu jogo de luzes. Podia ver nascer o fino feixe de luz clara num canto escondido do horizonte. Passou a mão no molho de chaves, passou de leve os olhos na menina que ressonava calma, dormindo pesado. Pegou o guarda chuva, abriu a porta de madeira e enfrentou a garoa.

E era assim: tendo o velho como vulto, sempre acompanhado, ora pela pequena, ora pelo violão; a velha, pouco a pouco, adquiria contornos barrocos de peça sem uso. Feliz, lembrava, eram almoços em que amigos músicos de Agenor o visitavam, antes de se trancarem no quarto a tocar. Feliz ela era em jantares recém casados, o homem, com vinho tinto de garrafão, o pegava pelo gargalo, trazia pelas costas e a enchia o copo, fazendo-lhe graça, como se exibindo, a querendo conquistar, desejando que lhe tivesse olhos; ganharia com o tempo, suas lágrimas.

E as gotas firmes de chuva, a princípio, intimidaram-na. Ocultas pela escuridão do início do dia, revelavam-se pesadas e frias quando tocando a pele, obrigando a velha a apoderar-se de seu guarda chuva antes mesmo da esquina. Fazendo a curva, atravessava a rua de terra, de onde já se podia ouvir o vozerio, subvertendo a calmaria, ordem natural das coisas. Era o inferno, demônio se fazendo valer através de sons. E se ela podia ouvir, imaginava o ressonante reverberando pela vizinhança, sempre tranqüila. Chegava com passos curtos, discreta, tomando com os olhos o interior do bar, onde podia ver Agenor venerando seu instrumento, ecoando lamúrias para desocupados, persistentes em sua adoração ao homem. E ela aguardava, do lado de fora, recostada a parede do bar, sem ser vista. E o dia nascia, enchia-se de cores, tons e sons, estes que não podia ouvir. E ela o esperava, até que terminasse seu culto profano à amante sonora que tanto gostava, tomava-o pelo braço e guiava o velho para casa.

- Será que melhora, mãe?

E a frase veio renitente, afugentando-lhe os pensamentos, fazendo-a desabar no terreno firme da realidade, semeado pela desilusão, Viu-se de novo estátua barroca, imóvel, sem poder agir ou pensar. Não se continha com a menina. Não queria crer no rumo incerto do fluxo da vida, que reservara à menina, ventre cheio, os tormentos do espírito cedo demais. O que fizera, vedada à expurgação divina, à heresia de tudo que acreditava e ao fardo eterno do pensamento se remoendo; o que fizera esta manhã era, nada mais, o que lhe tinham feito quando a moléstia a atacou, a terçã lhe mutilando os sentidos. A febre não a deixou viver mais, privando-a de, também ventre cheio, vislumbrar certa alegria que nunca teve. O primogênito, sonho, desejo e almejado, ficara para sempre no passado.

Ainda chovia.

*texto escrito em 9 de maio de 2005