Sol forte, mesmo dentro da casa. Olhava a camisa, amarrotada, visivelmente incomodada de se ver presa no cinto. Os sapatos, gastos, ele tentava esconder no vão embaixo sofá. Mesmo tranqüilo, não se sentia a vontade naquela casa, muito menos sob o olhar inquisidor que repousava sobre ele.
Arrancar um sorriso da velha era esmero delicado, trabalho de ourives. Por mais que se envolvesse ou enveredasse a conversa por assuntos banais, ela não largava a face sisuda e a fronte enrugada. Estragada pelos anos de vivência, parecia se vingar nas pessoas que a cercava com intempestividade.
A casa era grande, com pé direito de metros incontáveis, um átrio espaçoso, onde estavam, repleto de portas. Um vão, de retoques de gesso, dava a uma outra sala, menor, provavelmente usada para conversas mais reservadas.
Enquanto passeava os olhos pelos arredores, foi surpreendido pela fala, quase desfalecida da velha.
- Então, rapaz..como é teu nome mesmo?
- Charles.
Ela torceu o nariz com repugnância, mostrando uma careta que fez seu rosto ficar pior do que eu imaginei que pudesse ficar.
- Hum. Então, você me entendeu? Temos que ser inteligentes na vida, sabe? Com a Lúcia não tem futuro. Vejo que você é um rapaz direito, não vai querer estragar a vida dela, vai?
- Não, senhora..eu só queria…
- Pois bem…ela está passando alguns dias na casa de campo, não sei se está sabendo.
Como um velocista olímpico, a velha era incansável. Passado um silêncio curto, ela retomava o achaque, com o veneno escorrendo pelos lábios. Seu esforço me invejava. Tanto que desisti de rebater as afrontas.
Era hora de encontrar Lucinha e ver, cara a cara com ela, se teria coragem de me dizer tudo o que parecia tão mentiroso, mas que na voz senil daquela cadela fazia sentido.
E ela continuava a prosa, me contando sobre ex-namorados da neta, todos com nomes compostos, sobre casos parecidos com o nosso, amores desencontrados, casos mal resolvidos, perda de tempo. Ela desfilava a romaria de desgraças, fitando-me, expressiva como uma poltrona de vime. E eu sentia o tempo passar, as horas ficarem curtas e só o que queria era encontrar a mão de Lucinha junto a minha.
Pensava uma porção de coisas, tentava organizar as idéias, quando surgiu na sala, uma morena impávida, que só depois de muito tempo eu viria saber quem era. Esbelta, com lábios grossos e cabelos forçosamente amarrados em uma presilha de prata, a mulata trazia, requebrante, uma bandeja com xícaras e bolachas, ladeando um jarro imponente.
Esguia, Jesualda se fez percebida com passos altissonantes pelo assoalho da sala; talvez medo de interromper uma conversa importante, talvez uma petulância irresistível. A velha lhe censurou com o olhar, mas, surpresa minha, não disse uma só palavra. Então, pude reparar bem o colo da mulata quando ela pousou a bandeja na mesa central. Lábios grossos, realçados por um batom de cor avermelhada, a moça me retribuiu o olhar com um sorriso diametral.
- Rapaz, sinceramente, não sei o que pretende com minha neta…é melhor seguir meu conselho…tanta moça por aí, esquece a Lucinha. Vai ser melhor para vocês dois.
O que eu pretendia?
Era dignidade. O que eu buscava, em um sem tempo, mas não encontrei nem depois de conhecer Lucinha, era dignidade. Era um ir e vir mais tranqüilo, desanuviado. Ela era a paz, o amor, a esperança. Um espírito leve.
Ele sabia que não poderia se desvencilhar dos afazeres do dia a dia sem deixar de pensar nela. Não podia levar a vida como antes fora sem deixar de ouvir de Lucinha tudo o que precisava. Como sua vida pode ter mudado tanto em tão pouco tempo? Será que estava predestinado a viver num círculo, servindo de tapete e levando a vida a levantar enquanto os outros se especializavam em me derrubar? Era como a quimera da serpente envolta no coração, que impunha seu chocalho a cada palpitação mais forte.
Besteiras, bobagens; confidências, segredos. Tudo ficava fácil perto dela. Podia ouvir a voz de Lucinha sempre. Mesmo quando ela estava longe, mesmo quando estava calada. Com ela, sentia-se confiante. Queria cuspir isso tudo na cara da velha, mas faltava-lhe coragem. Não adiantava. Pouco importava o que ela dizia…só foi aumentando nele uma vontade estúpida de ver Lucinha o mais rápido possível.
- Bom, então eu falo com ela depois…
Bastou ele forçar os joelhos para se levantar e a velha ameaçou se despedir. Assim, ele se ergueu prontamente. Tinha vontade de atear fogo em tudo e ver a maldita cozinhar em meio a tanto badulaque e adorno, que ele sequer sabia o nome nem para que servia.
Balbuciou algo inaudível, passou a mão pela boina surrada sob olhar contrariado da velha. Ela queria o quê também? Que eu deixasse ali no sofá? Queria uma igual, cacete?
Mal deu dois passos, a morena apareceu, agora vinda de outra porta e tomou a dianteira até a saída. Abriu a porta sem me olhar, rosto de pé, olhos firmemente cravados fora da casa. Quase parou para admirar as feições da mulata mais uma vez: sua beleza era uma ofensa.
Sentiu-se só. Incrivelmente só. Ainda ouviu a velha ao fundo desejar lhe boa sorte. Puta velha. Quem será que Lucinha puxou? O pai, um escroto, a avó, um traste. Quem sabe a mãe?
Meteu as mãos nos bolsos, rasos como sua esperança e rumou, escolhendo com cuidado os passos pelas pedras do jardim.
*Texto escrito em 7 de setembro de 2006


