E fui falando devagar, cada palavra como um abraço, soletrando tudo o que incomodava. Ela trazia no rosto uma urgência dramática. Não era, afinal, o que ela queria ouvir?
Ela roçou os cílios, dois mundos em colisão; um longo princípio de pesar…ficou assim por não sei quanto pouco tempo; para mim pareceu uma eternidade. Abriu os olhos molhados, cílios quase colados…aqueles olhos grandes que eu senti muitas vezes em mim. Mas que não estavam mais lá.
Lembrei de Lúcia e seus olhos grandes. Quase cinzas. E, rápido pelos meus olhos, se passaram todos os instantes; poucos, mas suficientes, em que consegui me livrar da culpa de viver ordinário e a troquei pelo lindo trono de algoz de uma vida de gozo e sublimação.
O salão era vultoso, o piso impecavelmente lustroso. Madeira, couro, muito dourado. Tudo envernizado, como muitos dos rostos convidados. Um amontoado de velhos, velhas, hordas de naftalinas, sujeitos com ar fúnebre, imponentes, no alto de suas conquistas nulas e ausência de alma.
Vida estranha essa, repleta desses momentos vazios que, em segundos, deixa nascer um turbilhão de sentimentos incompletos.
Lembro do velho raquítico que me dava lições de Português, uma pele suja onde moravam ossos, sempre me dizendo “O importante é o sujeito, o importante é o sujeito”. Não sei se exatamente por isso, mas sempre carreguei o sujeito do velho como sendo eu próprio, dispondo das costas para levar o peso de ser o responsável por tudo.
Nem sei por que ela estava lá. Muito menos como consegui desviar o olhar até encontrar sua sombra, uma rainha lasciva. Longo vestido vermelho, ar desprotegido, os cabelos lisos percorrendo o rosto, seios pequenos, impávidos, coxas grossas e os olhos cinzas, sempre sorrindo: todas as mulheres existiam em Lúcia.
Lembro que naquela noite, troquei algumas palavras despretensiosas com ela. Algo estúpido sobre a chatice da música clássica, a futilidade de jantares-dançantes, a quentura em pleno inverno. E ela cravou seus olhos grandes em mim e despediu-se.
Minha derrota estava feita. Nada do que eu pensava atravessava milímetros sem passar pela mistura doentia do seu rosto de menina com mulher. Um obelisco em sedução.
Quando eu cresci, as coisas não pareciam tão impossíveis. Quase não havia nuvens. Quase nunca via fumaça. Era uma vida pontuada pelo quase, o outono de viver, a arrogância discreta de viver da modéstia.
Em dois meses, não havia lugar onde não havíamos feito sexo. Seu sorriso de dentes perfeitos me engolia. Pouco importava o meu redor, meu universo tinha outra direção. Meus cinco sentidos estavam concentrados em Lúcia. Destino, um parceiro impávido do fracasso.
E era puro capricho. Começou como um prêmio, virou vício. Lúcia era meu prêmio, um troféu que, não imagina como, eu venci, merecidamente, e a vontade de exibi-lo era cada vez mais incontrolável. Uma birra de moleque, pura pirraça.
A teimosia, a arte dos fracos, a salvação dos covardes.
Com Lúcia, os alicerces caíram, tudo o que eu construí na vida caíra perante a sua atitude de fina ironia e despreocupação com a vida; o que não combinava em nada com minha pujante rotina que exaltava o comodismo. Era o óbvio em cada passo que dava, sentia o ar gelado do abismo; uma tarde nublada e cinza contra uma tempestade em dia de sol forte.
Ficava cada vez mais evidente a falta de sentido de ter outra mulher em minha vida. E talvez pela certeza de um futuro indecente, caricato e descolorido, talvez pelo medo da morte prematura da minha alma, pelo nojo da vontade cretina que tinha de ter as duas nos braços. Talvez por todos estes motivos, bem medidos e dosados, vi no espelho um inimigo.
– Nascemos pra ser livres – Lúcia dizia, entre um engalfinho e outro, sempre com ar grave, mas impecavelmente cínico. Ela sabia o que eu gostava de ouvir.
Será esse o tal amor-próprio? Será esse o amor incondicional?
Foram meses de revelia. Meses vivendo a sombra da minha vida própria, iluminando meu desejo. E ela dizia suas palavras doces, roçando os dedos entre meus pêlos, as unhas na minha barba farta, como gato querendo agradar. E eu sentia o arfar dos meus anos de juventude, clamando para que eu agarrasse cada vez mais forte na minha paixão atemporal.
A fidelidade é imoral. Incrivelmente desumana.
Mas era surreal como em cada passo, meus pés se afundavam em um pântano, com lodo profundo…não movia mais meus passos, não ouvia minha própria voz. Consciência, dejeto de vida ou efeito colateral da rotina?
Mareou os olhos, já um pouco inchados, caminhou em direção a porta. Era quase noite, aquele fim de tarde nublado como eu gostava tanto, o vento frio invadia minha sala com golfadas certeiras de ar. Era como se o tempo parasse, esperando um grito que não vinha, um murro que não era desferido, um choro que não era ouvido. Ficava estático, bailando num tango híbrido à espera de qualquer movimento.
Cínica e combalida verdade, desusada em nosso belo mundo de pequenas imperfeições.
Meu fetiche, quase mórbido, pelo frio etéreo que invadia a sala, foi subitamente desfalecido. Finalmente, o som do telefone ganhou do silêncio que reinava.
De seus lábios rachados, eu ouvi:
“Sempre tem alguém pra atrapalhar a gente…”
Prontamente, ávido como urubu em carniça nova, retruquei antes de ela bater a porta:
“Sempre tem você pra me atrapalhar…” enfatizei.
Afinal, o importante é o sujeito.
*Escrito em 14 de fevereiro de 2008


